Saúde Não é Só Tratar do Corpo 

Cena comum de nossos dias um indivíduo ir a um consultório médico, ter o órgão ou membro que incomoda analisado em total isolamento, obter uma receita para um medicamento que muito possivelmente terá inúmeros efeitos colaterais, e ao chegar à farmácia, descobrir que tal droga ainda está baixo patente, custando absurdos.

Ganham os médicos, ganham as farmácias, ganham os laboratórios, enquanto nós, pobres enfermos, gastamos mais do que gostaríamos para muitas vezes adquirir apenas alívio temporário para o mal do qual padecemos, cultivando outros males paralelos causados pela nova química em nossas veias.  

Curiosamente, não nos ocorre a descuidada passividade que assumimos ao entrar neste circuito descrito acima. Quando adoecemos ( ou seja, quando perdemos a saúde), de forma frequente nos colocamos inteiramente nas mãos de médicos mecanicistas e de venenos disfarçados de medicamentos miraculosos, sem tomar qualquer papel ativo no processo de cura (ou de recuperação da saúde).

Porém, se olharmos de forma mais atenta, muito provavelmente daremos conta de que a ausência de saúde do corpo físico teve sua gênese em nós mesmos; em nossos maus hábitos de toda espécie, nossos vícios (os perceptíveis e os disfarçados de diversão), nossos prazeres temporários, nossas emoções mal geridas com raízes nem sempre muito nobres, nas falsas definições mundanas e materialistas de sucesso que nem sempre se realizam, mas que sempre nos escravizam e, principalmente, nesta fonte de energia tão negligenciada, chamada pensamento. De nossas mentes emergem as interpretações da realidade que  moldam nossos hábitos e comportamentos.

Do egoístico entendimento de que nossa vida e nossa rotina são mais demandantes e estressantes do que merecemos (já que em nossas visões míopes e nada modestas, mereceríamos vida mais tranquila e abonada), nasce a carência da empatia e validação alheias de tal percepção. Se estas se mostram ausentes, acabamos apelando para a taça de vinho ou copo de whiskey, que pode com o tempo se transformar em uma ou mais garrafas, que ao final, no longo prazo, desemboca no alcoolismo, que por sua vez, nos faz enfermos. Apelamos então aos médicos e medicamentos em busca de um reajuste, esquecendo que o que originou a derrocada foi uma interpretação da realidade já carente e desequilibrada de nossa parte. 

Outros maus hábitos (ou vícios) como a jogatina, o fumo, a promiscuidade, e as drogas “recreativas” encontram, como regra, mola propulsora em nossos vazios existenciais. Vazios estes com certa frequência mal elaborados e superficialmente administrados. Quando se mostram ausentes as realizações dos desejos de uma vida em família mais harmônica, da beleza física, da riqueza material, da reciprocidade de um flerte ou até mesmo de uma paixão, e do sexo com um mínimo de significância, acabamos por criar estados mentais que expressam solidão, malquerença, falta de melhor “sorte na vida”, e quando nos damos conta, temos em nossas mãos um pedaço de bolo ou doce gigantesco, um cigarro ou um vaporizador, cartas de baralho ou uma seringa contendo algo mais pesado para servir como anestésico. No entanto, ao  olharmos de forma mais atenta, todos estes vazios existenciais tiveram origem nas nossas próprias interpretações egocêntricas e superficiais do mundo a nossa volta. Por não aceitarmos uma realidade diferente da sonhada ou almejada, abrimos a porta para tais hábitos e vícios que nos fazem enfermos. Vale, porém, reconhecer que a enfermidade já estava presente nos vazios mal trabalhados.

Finalmente, vale mencionar uma das fontes geradoras mais menosprezadas de nossas enfermidades, qual seja, a nossa forma tóxica de nos relacionarmos uns com os outros. Relações permeadas pela intolerância, pela  inveja, pelo egoísmo, pelo orgulho, pelas mágoas, pela necessidade de dominação ou de mostrar-se superior, inevitavelmente desembocam em um nível de toxidade que nos geram úlceras, arritmias, desequilíbrios bioquímicos de toda espécie  que cedo ou tarde tendem a se materializar em diagnósticos médicos menos amigáveis que podem marcar nosso destino, seja em tratamentos sacrificantes, longos e caros, ou mesmo em um encurtamento totalmente indesejado e porque não dizer, desnecessário, de nossas existências. Tudo isso fundamentado em nossa dificuldade em gerir nossas próprias emoções e intenções menos nobres, raiz primeira de todo este ciclo enfermiço.   

Como muito bem disse Caroline Myss em seu transformador livro “A Anatomia do Espírito”, a nossa biografia se transforma em nossa biologia. Ou seja, a maneira como escolhemos viver nossas vidas, se transforma na saúde (ou na falta de) de nossos corpos. Em quase a sua totalidade, as enfermidades de nossos corpos nada mais são que a materialização física de nossas enfermidades e desequilíbrios da alma. O que comemos, o que bebemos, o que colocamos para dentro de nossos corpos, a forma como o sexo se expressa em nossas vidas, a maneira como administramos nossas relações, e principalmente a maneira como processamos mentalmente o mundo a nossa volta, expressam os desequilíbrios e enfermidades que residem em nosso eu mais íntimo. Nossas almas enfermas acabam por enfermar nossos corpos.

Portanto, fica o convite para que repensemos as causas raiz de nossos hábitos (nos casos mais graves, nossos vícios) , nossas formas pouco amorosas de nos relacionarmos um com o outro (seja no lar, nos círculos familiares, no trabalho ou na vida social em geral), mas principalmente dos nossos padrões mentais, pois nossos pensamentos egoísticos e a forma conflituosa como interpretamos o mundo a nossa volta, determinam quase todo o resto.

Se realmente nossa biografia se torna nossa biologia, o cuidado com a saúde começa em nós mesmos, de forma ativa e preventiva, sem delegar passivamente aos médicos e aos remédios tal responsabilidade. Nossos corpos são presentes de Deus, templos divinos, habitáculos de nossas almas, expressões vivas de nossa saúde espiritual. Tratemo-los como tal.  

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