A Nossa Missão de Vida
Diz uma antiga lenda judaica que certa noite, o rabino Akiva (um importante estudioso, filósofo e sábio que viveu na Judéia entre os séculos I e II DC) voltava para casa em meditação tão profunda após estudar as escrituras hebraicas, que se perdeu no caminho de casa. Quando se deu por si, ele havia acidentalmente se dirigido até o portão principal de uma fortaleza militar romana, e se viu frente a frente com o inimigo invasor. Antes que pudesse dar meia volta e refazer seus passos, a voz inquisitiva de um guarda romano que se localizava no topo do portão ecoou sobre ele: "QUEM É VOCÊ? E POR QUE VOCÊ ESTÁ AQUI?" Assustado, o rabino respondeu algo desorientado: "O quê?" A voz grave do soldado romano ressoou novamente: "QUEM É VOCÊ? E POR QUE VOCÊ ESTÁ AQUI?" O rabino então perguntou: "Quanto lhe pagam para fazer essas perguntas?" O guarda respondeu: "Duas dracmas por semana." Ao que o Rabino Akiva contestou: "Eu te pagaria o dobro se você ficasse do lado de fora da minha casa e me fizesse essas mesmas perguntas todas as manhãs!!"
Esta fabulosa estorinha nos traz profundas reflexões sobre os nossos propósitos de vida, sugerindo que nos seria altamente útil, se recebêramos um questionamento diário de quem somos e qual os nosso rumo na vida. Porém, antes de tudo, faz-se necessário perguntar-nos se temos um rumo a ser perdido, já que muitos de nós vivem apenas reproduzindo sua rotina, sem sequer erguer a cabeça buscando um norte. Indivíduos assim têm como propósito mais evidente, apenas o de viver mais um dia, sem realmente ter uma clara definição de quem são, e qual sua razão de existir.
É muito comum que busquemos definições de nós mesmos através de características trazidas do mundo externo, como um título, uma nacionalidade, uma profissão. Se o soldado romano nos fizesse estas duas perguntas, muito possivelmente assim as responderíamos. “Sou fulano de tal, engenheiro, e estou aqui para construir pontes e viadutos”. Porém, esse tipo de resposta só nos desvia a atenção do que realmente está sendo perguntado.
Quando trabalhei como life-coach, ao iniciar o trabalho com um novo cliente, com a intenção de melhor conhecer com quem eu estava lidando, costumava pedir para que a pessoa se definisse sem utilizar-se de títulos acadêmicos, profissão, nacionalidade ou origem geográfica, religião ou credo, time de futebol ou qualquer outro atributo originado no mundo externo. E por diversas vezes, a resposta era um ensurdecedor silêncio. E este silêncio dizia muito, sugerindo que tal pessoa jamais havia investido um minuto se quer para refletir sobre quem ela era como pessoa. O que o soldado romano adiciona a este quadro, é a reflexão sobre o nosso propósito enquanto estejamos neste mundo.
Muitos de nós vivem em profunda crise de identidade, esperando que tais definições caiam do céu ou sejam evidenciadas por algum ato da providência divina, o que raramente acontece. E a razão é muito simples. A definição de quem somos e do porquê de estarmos aqui não é algo a ser descoberto, mas sim definido e escolhido por nós mesmos. Se não tomamos as rédeas de tais definições e escolhas, existe uma grande chance de que o mundo a nossa volta definirá e escolherá por nós. Ao virar “passageiro” em tão importante viagem, sem qualquer controle sobre a destinação, corremos sério risco de nos frustrar mais tarde, quando nos dermos conta de que nosso paradeiro não é dos mais desejáveis.
Longe de mim querer apelar para chavões e frases feitas, mas se tais pensamentos venceram o teste do tempo, é porque algo de sábio existe neles. E um dos meus chavões favoritos diz que o propósito da vida é uma vida de propósitos. E eu adicionaria que tais propósitos via de regra são escolhas, não obras do acaso. Assim sendo, gostaria de sugerir a seguinte alteração nas perguntas do soldado romano, na busca de facilitar a autorreflexão.
Ao invés de perguntar, quem você é, pergunte-se; “Que tipo de pessoa ou ser humano eu quero ser? E por que motivo?” É muito provável que você precise se perguntar mais de uma vez sobre sua real motivação. Por exemplo; “Quero ser uma pessoa poderosa, que ocupe altos cargos e minha motivação é ter poder e ganhar muito dinheiro.” Pergunte-se de novo; “E por que motivo você quer ser poderoso e ganhar muito dinheiro?” Recomendo que siga fazendo tal pergunta até encontrar a real motivação, que, neste caso, pode ser bem menos nobre do que imaginamos. Outro exemplo pode ser; “Quero mudar o mundo e resolver os problemas de fome no planeta”. Pergunte-se de novo; “E porque motivo você quer dedicar sua vida a tais causas?” A resposta pode ter como causa raiz uma bondade genuína, mas pode também derivar de uma busca menos nobre de aprovação de pessoas queridas e importantes para nós. Quando finalmente você sentir-se totalmente alinhado(a) com as respostas que deu a si mesmo, você estará diante do “quem” e do “porque”. Busque então dimensionar a distância que te separa entre a pessoa que você é hoje e a que você acaba de definir.
O passo final será encher sua vida de propósitos alinhados com a pessoa que você quer ser, e com as motivações encontradas. Você terá então a definição de “como” se tornar tal pessoa. Como inevitável resultado de tal alinhamento, você certamente sentira o impulso e a energia para dar os primeiros passos, e sua transformação pessoal virá naturalmente, como consequência.
Você então estará pronto para encarar diariamente o soldado romano e responder de maneira segura e significativa às perguntas; QUEM É VOCÊ? E POR QUE ESTÁ AQUI?