A Paz Nossa de Cada Dia
Se existe algo que creio ser extremamente difícil de conquistar, mas ainda mais desafiador de se manter, esse algo é a tal paz interior. Por ser conceito de difícil definição, tornou-se lugar comum a sua busca através de cursos, seminários, livros, palestras, que na maioria das vezes cobram seu preço, mas não entregam suas promessas.
A paz interior já foi abordada no passado pelas mais diversas filosofias, doutrinas e religiões. Hoje em dia as “novidades” da chamada Nova Era vem trazendo novos conceitos e acercamentos. Porém, a grande maioria da população segue sem se quer se aproximar da mais remota sensação da tão almejada paz.
E quais seriam as razões de tamanho distanciamento? Tal dificuldade sugere que, por diversas razões, talvez estejamos num experimentar recorrente de situações opostas à paz. Ou seja, estamos em constante estado de conflito. E desafortunadamente muitas vezes, em frequente estado de guerra interior. Tais conflitos (ou guerras) causam repetidos sofrimentos de toda espécie, a nós e, muito pior, a aqueles que nos cercam. Em função destes sofrimentos, nos sentimos frustrados, ansiosos, angustiados e por vezes até depressivos.
Para melhor entendermos o porquê da dificuldade de atingirmos a tal paz, ou não conseguirmos mantê-la por muito tempo, faz-se necessário primeiro entender por que estamos em constante estado de guerra. Ou, ainda mais desafiador, contra quem estamos guerreando.
Proponho então o seguinte exercício mental. Pensemos no mundo a nossa volta em diferentes níveis de habilidade ou poder que possamos ter de controlar situações, eventos e resultados. Estamos exatamente no centro deste universo imaginário e, quanto mais próximo do centro, maior o nosso poder de controlar o que se passa.
Num primeiro perímetro, estão as coisas que estão totalmente sobre nosso controle. As atividades mais diretamente conectadas com o nosso poder de decisão estão envoltas nesse círculo. Que horário vou despertar, o que vou comer no café da manhã, que horas vou sair para o trabalho, que tarefas vou executar primeiro, são exemplos mais corriqueiros desta área de poder. Porém, nesta lista também se incluem ações de maiores consequências. Vou fazer uma dieta mais saldável? Vou ler livros edificantes? Vou exercer uma atividade física para melhorar minha saúde? Vou aceitar a proposta de trabalho que me trará um aumento de salário, mas me fará mudar de cidade/estado/país?
Todas estas decisões trarão ramificações, e nem sempre as coisas se darão como esperávamos. Quando as coisas não saem ao nosso contento, via de regra, declaramos algumas guerras. Primeiro, geralmente buscamos algo ou alguém para culpar. Perdi hora porque alguém não me acordou. Não fiz tal tarefa porque o chefe não me disse que era prioridade. Estou gordo porque os alimentos de hoje estão cheios de açúcar. Não tenho dinheiro para academia (mas tem para os drinks de sábado à noite). Nos revoltamos contra os eleitos culpados e travamos batalhas contra o mundo a nossa volta. Quando não culpamos a outrem, culpamos a nós mesmos e, quase que invariavelmente, declaramos guerra civil, nos recriminando e nos rotulando incapazes, arranhando nossa autoestima e comumente entrando em uma espiral negativa que pode nos trazer crises mais sérias e decisões ainda piores.
Num segundo perímetro estão as coisas que estão fora de nosso controle, mas que podem, no mais das vezes, serem influenciadas por nós. Geralmente são situações em que alguém mais está no controle das decisões, mas queremos direcioná-las para um final que melhor nos satisfaça. Nessa esfera de eventos, comumente nos frustramos quando nossa influência se mostra insuficiente, não surte o efeito desejado e a decisão alheia aponta para outra direção. Não aceitamos o fato de que somos impotentes perante as correntes mais poderosas que arrastaram o resultado final para longe de nossos objetivos. Comumente a declaração de guerra é imediata, pois não nos conformamos com o fato de que não temos poder decisório sobre a situação ou pessoa. De forma totalmente irracional e egoística, buscamos controlar a tudo e a todos, o que obviamente, é impossível. Nestes contextos, quando nossos impulsos controladores são exagerados, comumente nossas declarações de guerra causam rupturas ou, no mínimo, distanciamentos, e sofremos as consequências mais uma vez.
Finalmente, chegamos à esfera dos acontecimentos em que não temos nem controle ou influência. Catástrofes naturais, mudanças de regime governamental, guerras entre países, morte de pessoas amadas, são apenas alguns exemplos. E nesses casos, infelizmente, por vezes declaramos a pior das guerras irracionais, que é a guerra contra Deus. O culpamos pelo ocorrido, nos revoltamos contra ele, e causamos a pior das cisões, que é o distanciamento da aceitação da divina providência.
Em todas as situações acima, seja na esfera do controle, na zona de influência ou na área do destino, com uma frequência indesejada, nos recusamos a aceitar os nãos da vida e declaramos guerra aos supostos antagonistas. Guerra contra nós mesmos, contra os outros, contra as circunstâncias e até mesmo contra Deus. E assim, dia após dia, embate após embate, nos distanciamos da almejada paz.
Que tal começarmos a mudar isso assumindo de forma sadia e positiva os resultados de nossas ações? Não saiu como o planejado, tentamos de novo com mais experiência. Sem crises, sem vitimização, sem culpa, sem guerra civil. E que tal se aceitarmos que cada um tem seu livre arbítrio, que não controlamos resultados de jogos ou de eleições, que não controlamos destinos alheios e fizermos as pazes com o mundo quando este toma uma direção indesejada? Lembremos que tudo passa. E finalmente, que tal se cultivarmos uma fé genuína e verdadeira nos desígnios divinos, humildemente aceitando e fazendo as pazes com o fato de que, ao menos por hora, não compreenderemos completamente seus caminhos e suas decisões?
Se deixarmos de declarar tais guerras, via de regra inúteis, quem sabe tenhamos uma chance de alcançar nosso objetivo. A cada esfera de ação, cabe uma paz diferente. E como disse o Mestre no maior sermão de todos os tempos, “bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus”.
A paz do mundo, começa dentro de cada um. Pronto para hastear a bandeira branca?