O Sacro Ofício

Muitas vezes em nosso dia a dia, fazemos uso de palavras que através dos tempos tiveram seu sentido original alterado e, em certas situações, até ganharam uma conotação negativa. Porém, ao investigarmos suas raízes e real significado, tais palavras ganham nova profundidade e dimensão que convidam à reflexão, e porque não dizer, uma ressignificação.

               Um exemplo de tal entendimento modificado através dos tempos pode ser encontrado na palavra sacrifício, já que na forma com que é utilizada hoje em dia, geralmente significa algum tipo de sofrimento, algo ruim e indesejado, que fazemos contra a nossa vontade e que apenas beneficia a alguém mais. Muitas vezes o ato de sacrificar-se é usado como moeda de troca, seja situacional ou emocionalmente falando. Me sacrifico por você, agora espero que você me retribua.  

               Ao investigarmos seu significado original em dicionários e em sua etimologia, encontramos que nem sempre o exercício do sacrifício vem acompanhado de um sentido negativo. Além do viés religioso e ritualístico da primitiva imolação de animais e até mesmo de seres humanos (que graças a evolução de nossa sociedade, são mais e mais raros, e parte de um passado cada vez mais distante), o sacrifício também pode significar uma renúncia voluntária, uma dedicação intencional a algo ou alguém, ou mesmo o doar-se (ou doar algo que nos é caro) a alguém, ou algo que amamos.

               Indo um pouco além, ao investigarmos a origem da palavra no Latin, veremos que sacrificium vem da junção das palavras sacer (sagrado) e facere (fazer). Numa tradução mais literal, o sacer facere significa um ofício sagrado, ou a essência santificante que vem embutida no exercício de algum ofício ou renúncia.

               Ao melhor entendermos a ação sacrificial como algo voluntário que carrega em sua natureza o ato de renunciar a nós mesmos, ou de doar-se intencionalmente a alguém ou a algum propósito maior, e que vem revestida do significado de uma ação que santifica, podemos então entender tais situações com um olhar totalmente renovado e ressignificado. Chegamos ao entendimento de que ao nos sacrificarmos, poderemos estar em essência, nos santificando.

Mas para que o sacrifício tenha em si este teor santificante, existe um “porém”. Ele deve ser totalmente desprovido de interesses e da expectativa de retribuição, pois se fazemos algo para alguém esperando retorno, pouco existe aí de um sacro ofício. Este “toma lá, dá cá” (o famoso “quid pro quo”) acaba por tornar-se escambo, comércio, troca de favores, e não passa no teste para caracterizar-se como uma ação santificadora.

Talvez o maior exemplo de um sacro ofício esteja no ato amoroso de gerar uma nova vida. Quando decide ser mãe, uma mulher passa por todo tipo de dificuldades e provações, que se apresentam durante a gravidez (com os enjoos, o aumento de peso, as alterações hormonais, e os desconfortos), no parto (materializadas nas dores físicas, no esforço e na consequente exaustão), e no pós-parto (amamentando e cuidando do bebê até que este inicie seu processo de independência). Pensemos no pai que, durante a madrugada toma o bebê em seus braços após a amamentação, cuidando para que este inicie seu processo digestivo enquanto a mãe descansa. Ele deixa de lado as preocupações com a atividade laboral que está por vir, com aquela reunião da primeira hora com o chefe, fazendo o sacro ofício de deixar seu sono de lado, para que a esposa se renove e o bebê seja cuidado. Se o amor estiver presente nesta família, isso será feito sem qualquer expectativa de reconhecimento ou ressarcimento.

Porém, outros atos de sacro ofício mais corriqueiros devem ser mencionados, pois, por sua essência caritativa e amorosa, sem que notemos, contribuem para o nosso crescimento espiritual ou santificação. O ouvido amigo a alguém aflito num momento em que você teria outros afazeres, o abster-se de uma discussão para manter a paz com um ente querido, a dedicação de um sábado ou feriado para participar de trabalhos socias do clube, da igreja ou por própria iniciativa, participar de um mutirão para limpar uma praia, visitar um amigo doente, dar mentoria a um novo funcionário mesmo que de forma informal e não solicitada, e talvez aquele que mais conta no nosso processo de santificação; criar e educar filhos até sua completa independência e  formação como pessoas do bem. São esses sacrifícios diários que pouco a pouco nos santificam no longo prazo.

Mas não seria justo encerrar esta reflexão sem mencionar aquele que fez o maior sacrifício de todos os tempos. Jesus não apenas se sacrificou em seu martírio e crucificação. Seu maior sacro ofício foi dedicar sua vida para nos deixar sua boa nova, que segue como o maior instrumento de santificação até hoje.

Fica o convite para que façamos do sacro ofício, algo intencional e amoroso, transformando o mundo a nossa volta em um santuário divino, todos os dias.  

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