Lutando a Boa Luta

Imagine por um momento que você está na fila para comprar seu café preferido e uma moça vestida de enfermeira passa por você em direção à porta levando seu capuccino. Ao sair do café, à distância você ouve uma sirene, e tem tempo suficiente para ver o carro de bombeiros passando em disparada. No estacionamento um executivo todo bem-vestido corta seu caminho em direção ao carro, aparentando estar atrasado para sua primeira reunião. Passa por ele, bem mais relaxado, um médico que está por chegar em sua clínica, pronto para atender o primeiro paciente do dia. Enquanto você dirige para o trabalho, o caminhão de lixo cruza sua frente vagarosamente, denunciando seu peso e consequente lentidão. Ao passar em frente a uma igreja, você consegue vislumbrar ao longe um padre entrando pela porta lateral de seu templo. Até que você chegue ao seu local de trabalho, outros tantos indivíduos cruzam seu caminho, mais ou menos apressurados ou entusiasmados com suas atribulações matinais.

                E então, inevitável se faz uma reflexão. Cada um a seu modo, cada um a sua maneira, está travando suas próprias batalhas, que podem estar em diferentes momentos de suas respectivas trajetórias.

A enfermeira pode estar começando sua carreira, recém-saída das cadeiras universitárias. O bombeiro já pode ter reunido anos de experiência, e a emergência que está prestes a atender já não lhe assusta ou desafia, e no fundo, aceitaria de bom grado uma promoção com maiores responsabilidades. O executivo já pode estar fazendo em sua cabeça uma contagem regressiva para sua aposentadoria, quando finalmente poderá viver dias menos apressados. O médico possivelmente está diante de apenas mais um dia no consultório, onde enfermidades corriqueiras e aborrecidas o esperam, mas é sabedor de que sua intervenção poderá diminuir o sofrimento de muitos, e nisso encontra a motivação para mais uma jornada. O coletor de lixo mal pode esperar para terminar sua exaustiva rota e regressar ao lar para um merecido descanso. Finalmente, o padre já senil, busca forças na divindade para servir à sua comunidade com devoção por mais um dia.         

                A conclusão que se chega é que, de uma maneira ou de outra, todos estamos travando algum tipo de luta, estejamos nós na fase da preparação, na etapa do almejar algo mais, no declínio inevitável, ou já no ocaso de nossas ocupações. As expectativas que nutrimos, os objetivos que ambicionamos, podem nos entusiasmar ou nos angustiar. Mas o que importa é dar-nos conta que enquanto travamos tais batalhas, afetamos diretamente o mundo à nossa volta. A labuta é comum a todos. Mas a maneira com que lutamos, faz o nosso entorno melhor ou pior, inevitavelmente.

                A enfermeira noviça pode atender com arrogância e indiferença, ou cuidadosa e atenciosamente, trazendo energia sanadora ao exercício de sua função. O bombeiro ambicioso pode executar sua tarefa de forma protocolar, ou fazer de sua ação um ato salvador de algo ou alguém importante para quem o convocou. O executivo elegante pode exercer sua autoridade de forma puramente pragmática visando exclusivamente o lucro, ou pode usar de sua liderança para formar novos líderes e servir como alavanca para o crescimento de seus liderados. O médico entediado pode escolher usar seus talentos simplesmente para enriquecer e tratar seus pacientes com desdém, ou pode fazer deles seres mais saudáveis e empoderados no cuidado de sua própria saúde. A coletor de lixo pode se enxergar com indiferença ou perceber-se como alguém que contribui para a melhoria da coletividade. Finalmente o líder espiritual experiente pode fazer de seus seguidores seres passivos em suas respectivas buscas  espirituais, expostos a possíveis castigos divinos em função de suas debilidades e limitações, ou  pode escolher transformá-los em agentes de sua própria transformação, portadores que são de uma alma em eterna evolução.

                De uma maneira ou de outra, ao travarmos nossas batalhas individuais, estaremos sempre, de maneira inequívoca, impactando o mundo a nossa volta. Ninguém está isento das lutas. Isso é comum a todos. O que nos diferencia é a maneira como travamos tais batalhas. Nossas vidas laborais nada mais são que canais de interação com o próximo.

                Creio que comum também seja o desejo, por mais latente que esteja nas profundezes de  nossos seres, de que ao final de nossas existências, possamos olhar para traz e ver que fizemos a diferença para o bem, sem arrependimentos.

                Fica então a convocação de que  lutemos a  boa luta, que combatamos o bom combate, como fez Paulo de Tarso. Que busquemos através do exercício de nossas profissões, fazer delas um instrumento de transformação positiva na vida do outro.

Que possamos dizer a nós mesmos ao final de nossa trajetória; minha carreira está terminada, combati o bom combate, guardo a fé num mundo melhor.

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O Sacro Ofício